Por Pedro Menezes
Gregório Duvivier é um cara bacana. Eu me identifico com ele. Gregório faz meia dúzia de piadinhas no youtube e ganha uma boa grana pela publicidade dos seus vídeos. Eu faço meia dúzia de piadinhas em mesas de bar, mas não ganho nem uma cerveja de graça. Gregório escreve uma coluna para Folha, sempre pontuando seus textos de forma moderninha para parecer que tem um estilo divertidão, meio intelectual, meio de esquerda. Eu faço o mesmo em quase tudo que escrevo. Meus textos têm uma pontuação meio estranha e o pessoal diz que quero parecer meio intelectual, meio de esquerda. E fica a dica aos meus quinze leitores: pontuar o seu texto assim é a melhor forma de evitar aquelas frases de cinco ou seis linhas, que o seu talento literário transformaria numa troça ininteligível. Aliás, são três as boas dicas que tenho para quem quer fingir que escreve bem: use frases curtas, abuse da pontuação e escreva palavras como “ininteligível” nos seus textos. Eu juro que funciona.
O problema de Gregório Duvivier foi ter dado uma pausa nas piadinhas para escrever sobre economia política. Sei lá, pode parecer difícil escrever sobre um tema desses, mas se você abrir o dicionário de estereótipos e prometer que não vai passar de uns cinco parágrafos, não será difícil fingir que manja do assunto. Depois do texto, você terá certeza de que é um sujeito cheio de consciência social e muito superior àquele taxista obeso que vota no Maluf. Se o texto sair na Folha, receber milhares de elogios e você estiver pegando a Clarice Falcão, eu nem imagino como ficará o seu ego. E nem imagino mesmo, já que eu não escrevo para a Folha, só recebo elogios da minha mãe e não tô pegando a Clarice Falcão. Que merda. Mas vamos à coluna que ele escreveu. Essa coisa de enrolar meia dúzia de parágrafos sem escrever nada que preste não funciona muito bem quando o seu objetivo é falar de uma parada meio séria. Seria bacana se o Gregório soubesse disso.
A última coluna de Gregório Duvivier na Folha de São Paulo provavelmente foi motivada pela reportagem “O oposto do black bloc”, publicada na Veja Rio. Nela, alguns filhinhos de papai que militam pelo quase fundado partido NOVO foram retratados como alguns filhinhos de papai que militam pelo quase fundado partido NOVO, com o agravante de que o repórter, imerso na tosquice habitual da Veja, não fez o mínimo esforço para ver nos sujeitos algo além de filhinhos de papai que militam pelo quase fundado partido NOVO. Na ausência de declarações condenáveis por parte dos entrevistados, o jornalista amolou os mínimos detalhes do estereótipo que lhe interessava para tentar criar os novos “reis do camarote” da política, pongando no sucesso do seu colega da Veja São Paulo. Para escrever sua coluna, Gregório bebeu de cada uma dessas simplificações sensacionalistas sem o menor pudor, comprovando uma tese que cada um dos liberais brasileiros repete há anos: A diferença entre um repórter da Veja e grande parte dos frequentadores da Lapa, da Rua Augusta e círculos moderninhos diversos está apenas na direção para onde apontam a sua metralhadora de adjetivos superficiais. Digo isso com alguma precisão, uma vez que neste segundo grupo estão muitos dos sujeitos a quem empresto um adjetivo não tão superficial: são os meus amigos. (Fica o meu beijo pra vocês, seus lindos!)
Com o espantalho esteticamente pronto em sua cabeça (alguém aí gosta de coxinhas privatizantes sem catupiry?), Gregório só precisou colar nele algumas opiniões toscas com as quais nem o mais liberal dos liberais concorda. A única delas que foge a essa regra é a antipatia com os funcionários que habitam as repartições públicas de todo o país. E eu admito que compartilho dessa antipatia sem a menor vergonha. Imagino que Gregório defenda um país menos desigual e uma educação pública (sic), gratuita (sic) e de qualidade. É por isso que não consigo entender alguém que não seja antipático aos privilégios de um grupo cuja aposentadoria consome mais verba pública do que o sistema estatal de educação básica, em todos os seus níveis. E a aposentadoria representa apenas uma parte pequena dos mimos absurdos que se transformam em “direitos adquiridos” (sic) dos funças, mas não se estendem à imensa maioria dos brasileiros. A coluna insinua, com aquele jeitão meio irônico, que os liberais defendem o livre mercado por acharem que quem não tem dinheiro precisa trabalhar mais. Nada mais falso, mas prometo que passarei alguns dias refletindo sobre a questão e talvez conclua que bom mesmo é um sistema político que toma 40% da renda dos trabalhadores para gastar esse dinheiro de forma muito eficiente, garantindo que nenhum desembargador jamais terá que viver com menos de 25 mil reais por mês – e isso em casos extremos, já que desembargadores que ganham menos que o teto salarial constitucional são tão comuns quanto ursos polares que cagam diamantes na Avenida Paulista. Sem dúvida, uma causa humanitária.
Gregório se estende na sua descrição sobre o Estado mínimo, que ele caracteriza como um contexto político que só prejudica os mais pobres. Desconheço, porém, qualquer exemplo de país que conseguiu garantir aos mais pobres uma condição de vida minimamente digna sem um Estado muito mais enxuto do que o nosso. Existe uma correlação teórica e empírica gritante entre a liberdade econômica e a qualidade de vida em todas as faixas de renda. Mas preste atenção na frase anterior e responda: será que é possível manter a pose moderninha e, ao mesmo tempo, se preocupar com ideias burguesas que envolvem uma “correlação teórica e empírica”?
Desconheço, também, porque o presidente da GOL ou Eike Batista seriam os representantes imaginados por Gregório como ideais para governarem o tal Estado mínimo. Um Estado mínimo é meio incômodo para essa gente fina. Nele, a GOL não faz lobby em reuniões com a ANAC para definir as regras do mercado de aviação e Eike Batista não teria os bilhões do BNDES disponíveis ao seu bel prazer. Seria ótimo. Assim, a Folha de São Paulo poderia reservar mais espaço para o Gregório, ao invés de publicar declarações e colunas do Eike, em pessoa, defendendo a importância de um tal “Estado indutor do desenvolvimento”.
O Estado, aliás, é razoavelmente mínimo em uma área específica, onde as suas regulações ainda não atingiram o sucesso pleno. Falo da internet, onde Gregório ainda pode fazer as suas piadas livremente e ser remunerado por isso sem que encham o seu saco. Para abrir uma conta no youtube, você precisa ter um nome, um email e talvez uma data de nascimento. Para receber a grana do Google Ads, basta uma conta corrente. O cadastro do youtube ainda não exige certidão de casamento, nome de solteiro da avó materna ou certificado de humorista qualificado A+, concedido generosamente pela Associação de Comediantes Brasileiros. Mas fiquem tranquilos. Não vai demorar para que o Estado redentor nos forneça um youtube público, gratuito e de qualidade. Gregório Duvivier aprova. Ele é um cara bacana.
Pedro Menezes é estudante, editor deste site e um dos co-fundadores da rede Estudantes pela Liberdade no Brasil. Seus interesses incluem teoria política, história, economia, cinema e o Vasco. Apesar de uma ou outra piadinha sem graça, ele realmente acha que Gregório Duvivier é um comediante bacana.
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