Escrito por Rodrigo Viana

Sabe aquele momento em que você, livre-mercadista, chega para alguma pessoa anti-mercado e diz algo como “capitalismo é liberdade” ou “capitalismo é benéfico para todos” e tal pessoa lhe olha com desdém? Muitas vezes até o ironizando? Sabe aquele momento em que você defende o tal anarco-capitalismo e o outro dá de ombros? Do qual os mais esclarecidos lhe respondem, de modo enfático, “Anarco-capitalismo? É impossível existir capitalismo sem estado”?
Não parece que existe um debate entre pessoas de línguas diferentes? “Afinal”, você provavelmente pensaria, “como alguém poderia ser contra ou achar impossível um mundo onde tudo fosse baseado em ações voluntárias?”.

E se eu dissesse que eles estão corretos mesmo eu sabendo que você também está? Soa estranho, não é? A princípio parece uma contradição, mas não necessariamente. Isso ocorre porque existe um entrave, uma dificuldade entre duas formas de se comunicar. Essa dificuldade é uma barreira cultural da língua.

Essas barreiras podem ocorrer quando um estrangeiro visita um país diferente do qual não possui domínio da língua nativa (barreira da língua), como também entre pessoas falantes de uma mesma língua (barreira cultural de linguagem). Um exemplo de uma barreira cultural da linguagem seria quando uma pessoa de uma certa região se comunica com alguém de outra, que sente dificuldades em entender ao receber mensagens com expressões do qual não está acostumado a ouvir. Mas isso necessariamente não quer dizer que aconteça apenas quando existe um espaço geográfico os separando. Em uma família as pessoas podem sentir dificuldades para se comunicar. Sabe quando um adolescente utiliza gírias e expressões do qual os pais não estão acostumados a ouvir?
Para obter um sucesso na comunicação, isto é, emissor e receptor se entenderem de modo satisfatório, não basta apenas ter uma boa oratória, mas dominar os significados das palavras também. E quando falo de significados, falo das diversas ideias, muitas vezes contraditórias, que uma palavra pode conter em vários grupos diferentes.

Se existe algo do qual aprendi nesses anos em discussões pela internet é o quão dificultoso um debate político pode ficar. Aquilo que poderia ser interessante para ambos os lados pode se tornar um assunto enfadonho e desgastante. Tendo como resultado concepções ainda mais ininteligíveis para as partes envolvidas.
Vejamos dois exemplo clássicos com os termos “socialismo” e “capitalismo” . Vou começar pelo primeiro.

Socialismo, levado ao seu significado bruto, nada mais é que o empoderamento dos trabalhadores e a coletivização dos meios de produção. Empoderamento, neste caso, seria dar maior delegação de autoridade e autonomia ao trabalhadores em uma empresa. Com maior poder de decisão em suas ações e maior liberdade para que os próprios trabalhadores busquem uma melhor satisfação em seus empregos. E coletivização do meios de produção seria um modelo de organização empresarial onde os trabalhadores fossem os donos daquilo que produzissem. Quer dizer, fazer com que simples assalariados fossem seus próprio patrões e tendo autonomia total.
Essas ideias, principalmente quando desenvolvidas em teorias modernas de organização social, econômica e política, visam uma melhor chance de igualdade de oportunidade e de meios para todos os indivíduos, em busca de uma compensação igualitária a todos os envolvidos.
Vale lembrar que estas ideias básicas eram adotadas muito antes das teorias políticas liberais ou socialistas existirem, como as praticadas pelos artesãos. Deste modo, os artesãos procuravam métodos para benefício mútuo e criando organizações como as guildas.
Assim se entende que esse “socialismo rústico” não é nem um sistema de governo nem um sistema econômico, mas um modelo de produção para a melhoria das condições do trabalho e da comunidade.

É a partir dessa concepção de modelo mutualista (e de análises políticas distintas) que se começou a firmar diferentes teorias de sistemas econômicos e políticos para se chegar a uma melhor condição social e econômica. Dessa maneira surge várias teorias políticas e econômicas socialistas como as conhecemos hoje, aliás muitas delas diferentes entre si. Uns usando o estado (marxismo) e outros não (anarquismo). Com certas teorias anarquistas sendo até a favor de medidas pró-violência e outras abominando-as por completo. Com modelos mais individualistas e outras mais coletivistas. E assim por diante.
Então, entendendo o cotexto histórico de que o socialismo de estado tenha ganhado mais adeptos e, por consequência, popularidade durante os anos, é compreensível que o termo “socialismo”, dito de forma única, seja visto praticamente como uma base para todas as correntes desta tradição política. Por consequência disso, tem-se a impressão que todo socialista apoia as medidas parecidas com o regime soviético. Neste caso, se deduz falsamente socialistas (independente da vertente) que sejam ou a favor de utilizar a força para estatizar os meios de produção e planificar a economia, ser contrário a todo tipo de direito possessório, contra a individualidade e a favor de medidas pró-violência. Ou então que seja contra o estado (por exemplo, os anarquistas) porém a favor de todas as outras.

Do mesmo modo ocorre com o termo capitalismo. O significado original deste termo nada tem a ver com liberdade econômica, como descrito por muitos teóricos liberais modernos. O capitalista seria parte de uma elite econômica, um pequeno número de pessoas que controlam os rumos da riqueza e dos meios de produção. Capitalismo, dependendo do contexto original usado, pode ser visto tanto como um modelo de produção quanto um sistema econômico.
Referindo-se a um modelo de produção, ele pode ser descrito como o domínio, controle feito por certos empresários no ambiente de trabalho, na sociedade e no poder político caso este se faça presente. Este modelo de produção se baseia numa estrutura onde comporta produção em larga escala, hierarquização, centralização, diferença de poder entre patrão-empregado, trabalho assalariado e transação em um tipo de relação impessoal com outros indivíduos, de modo a favorecer um vínculo com o dinheiro.
Já referindo-se a um sistema econômico, ele pode ser descrito como um sistema onde exista um laço unindo o poder político e o poder privado para benefício de ambos. Um poder privado bastante influente, sendo exercido, normalmente, por grandes empresas. Se formos mais longe, poderemos perceber que tal sistema, dentro desse contexto, pode ser facilmente considerado como fator chave para os os governos de características fascistas europeus. Que é como o próprio Mussolini descreveu seu sistema político-econômico, um corporativismo.

Trazendo também para o contexto histórico, nota-se que esse significado ganhou popularidade pela consequência daqueles que se opuseram ao regime soviético. Dessa forma, a falsa dedução fica em torno daqueles se mantiveram contra o sistema de planificação econômica, colocando-os todos como “capitalistas”. Ou seja, eram as pessoas que defendiam um sistema de mercado (liberto ou não) no qual se mantinha através do espólio alheio, da chantagem política e da exploração econômica com os menos favorecidos a visar o enriquecimento de uma classe dominante. Ou então a favor de um sistema onde, em teoria, não se almejava, por boa fé, tais características porém as resultando como consequência.

Diante dessas perspectivas e conclusões, vemos o quão infrutífero pode ser um debate político caso este não conheça o cenário como um todo. Se fazer entender é realmente necessário.
É compreensível que pessoas fora de um ambiente de estudo tenham posições sem um embasamento teórico, refletindo suas conclusões grosseiras e pueris. Mas para estudiosos isso é inaceitável.
Se os críticos do socialismo como um todo não entender as bases das diversas correntes políticas que existe no socialismo, o resultado será desastroso. Deve-se conhecer a dialética de cada grupo antes de qualquer pseudo-análise para não soltar conclusões intragáveis.

A mensagem deve ser precisa em sua declaração e muitas vezes não é isso o que ocorre. Libertários mainstream, em suas críticas ao estatismo e a economia planificada, costumam se basear num vocabulário próprio um tanto pobre e simplório para descrever seus pensamentos. Muitas vezes resultando em conclusões ambíguas (quando não errôneas).
Por exemplo, ao tratar do sistema econômico soviético, baseado no estatismo e na planificação econômica, é comum esses libertários fazerem uma conexão estranhíssima junto ao fascismo alemão. O argumento, segundo eles, estaria no fato de que os dois modelos seriam um sistema baseado num mero estatismo, portanto, (sic) “socialismo”. Levando a crer que a diferença entre um e outro estaria apenas em detalhes. Este é um exemplo de conclusão falha. Embora os dois modelos se baseavam num forte estatismo, há diferenças gritantes do qual não se pode colocar em um mesmo nível.

Por isso mesmo confesso que às vezes tenho dificuldade em entender certos textos vindos desse grupo. Porque, para este eles, socialismo pode significar medidas tipicamente socialistas como planificação econômica (estatal ou voluntária), coletivização dos meios de produção (também estatal ou voluntária) e medidas necessariamente não socialista em si como estatização e intervencionismo econômico. Bem como aos, digamos, excêntricos o nada socialista estado mínimo liberal. Podendo englobar um ou mais desses significados destoantes entre si. Um absurdo completo.
Com capitalismo é a mesma coisa pois em seus discursos pode ser um modelo específico de produção, um modelo específico de comercialização, um sistema econômico intervencionista ou um sistema de liberdade econômica radical, sem estado. Mistura-se sistemas políticos com econômicos e modelos de produção. Um verdadeiro samba do crioulo doido.

Eu compreendo quando anarquistas, de forma categórica, se mostram como socialistas a resgatar o termo vilipendiado, através de anos e anos, para defenderem suas vertentes libertárias. Vertentes estas que, na maioria das vezes, se mantém longe das teorias marxistas. Afinal, estão apenas reafirmando sua raiz política. Do mesmo jeito que entendo quando liberais respondem de forma semelhante, renegando o termo “neoliberal”. Termo este carregado de conceitos como “privilégio à corporações” e “favorecimento a uma economia intervencionista” para reforçar o rótulo histórico de liberal.
Sinceramente não entendo o do porquê estes últimos adotam o termo “capitalismo” pra descrever um sistema de liberdade econômica, mesmo sabendo que tal termo nunca teve nada a ver com liberdade. Na verdade tal termo sequer fazia parte da tradição liberal, tendo sido adotado em tempos mais recentes.
O resultado disso é a costumeira desinformação e dificuldade na hora de passar a mensagem. Chegando de forma deturpada e incompleta (isso quando chega). Além do fato de poder haver conflacionismo de ideias e comportamento.

Além de buscar clareza na mensagem, é primordial antes entender o que a outra pessoa queira dizer com as mensagens dela. Entender o que ela defende para poder passar uma mensagem de forma clara e nítida. Não ficar preso em jargões ou palavras de ordem, mas investir no diálogo. Não ver certos vocábulos como palavras malditas ou diabólicas para querer se distanciar. Isso não traz benefícios algum, certeza.
Saiba que o que um compreende por propriedade privada, livre mercado, coletivismo ou feminismo pode conter (e geralmente contém) significados diferentes em determinados grupos. Entenda que, dependo do grupo a ser focado, exista fortes conceitos preestabelecidos enraizados.
Também é importante lembrar que mesmo pessoas opositoras podem defender coisas parecidas, mesmo até ditas de formas diferentes.

Apenas por curiosidade vou citar alguns fatos. Os anarquistas Pierre-Joseph Proudhon, Benjamin Tucker e Lysander Spooner, de tradições socialistas, defendiam exatamente o mesmo sistema econômico de liberais como Adam Smith e Jean-Baptiste Say, por exemplo. Todos eram livre-mercadistas. Suas diferenças estavam na discordância do sistema político. Do mesmo modo, liberais como John Stuart Mill e Frédéric Bastiat defendiam um arranjo social mutualista, semelhante ao destes anarquistas citados. Bastiat era a favor do empoderamento dos trabalhadores através de sindicatos e Mill era favorável a empresas coletivas, como cooperativas em posse dos trabalhadores. As discordâncias entre esses dois grupos ficavam, principalmente, no sistema político. A questão do direito possessório, por exemplo, faria com que teóricos como John Locke e Proudhon estivessem próximos. Embora os dois tivessem suas diferenças sobre o modo de apropriação original, eles concordavam que uma apropriação legítima só deveria ser feita mediante o trabalho de quem o utilizava. O primeiro chamava esse arranjo social de “propriedade privada” e o outro de “posse”.

Para concluir, estes exemplos mostram que termos como socialismo e capitalismo, quando usados em suas feições modernas, escondem informações preciosas e difíceis de serem entendidas por quem está recebendo a mensagem. Quando se coloca com exatidão o que está sendo discutido em termos alternativos, seja um sistema político, econômico ou um modelo de produção, o diálogo flui de modo muito mais fácil.
Claro que, dependendo do tipo de discussão, muitos desses anti-conceitos poderão vir à tona. Deste modo, acredito que o apego aos significados originais soa mais esclarecedor para a mensagem ser passada de forma clara. Por isso, é interessante pensar se um determinado termo vale a pena ser reafirmado em algum contexto, ser usado com moderação em determinados grupos ou abandonado por completo. Não existe uma fórmula para isso pois estamos falando de língua, algo um tanto além do meu e do seu controle. A língua é uma ferramenta poderosa que pode ser usada tanto para ajudar como para atrapalhar. É um instrumento riquíssimo que deveria ser melhor explorada. O que impede de se criar uma nova linguagem mais acessível à todos? Então da próxima vez que alguém disser algo como “abaixo o capitalismo”, preste atenção, talvez ele defenda ideias semelhantes com as quais você acredita.

rodrigo vianaRodrigo Viana é programador de software e blogueiro. Em seus interesses incluem disciplinas como história, sociologia, economia e filosofia política. Já colaborou escrevendo para outros blogs políticos e atualmente colabora no Portal Libertarianismo, além de manter os blogs A Esquerda Libertária e Libversiva!. Quando não está falando sobre política, provavelmente está falando de música ou algum assunto relacionado a cultura pop. Seu twitter é @VDigo.

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