É quase impossível falar de Cuba de um ponto de vista neutro. Os que simpatizam pela revolução costumam idealizar as boas características da Ilha e ignorar as violações de direitos humanos e restrições à liberdade impostas pelo regime castrista. Os que contra ela vociferam minimizam os efeitos negativos do embargo americano e ignoram que a natureza da violência do regime existe (ainda que em menor escala) em países que consideramos democráticos.

Una Noche (Havana, 2012/13), estrelado por atores cubanos e filmado em Havana, traz um relato cru e humano da realidade do povo e governo cubanos. Num país sobre o qual os fatos costumam ser fantasiados, nada mais justo que uma obra de ficção expresse texturas reais.

Há pinceladas artísticas na celulose que retratam um povo alegre, criativo, etnicamente diverso e empreendedor. Pinceladas que mostram que em Cuba há, como em todas as outras partes, homofobia, machismo, traições, violência policial, casais de namorados, patrões chatos e famílias desestruturadas.

A mensagem última do retrato é que os cubanos não são distintos de pessoas que vivem em outros países. Eles querem as mesmas coisas que todos nós queremos: mais conforto, entretenimento, diversão, amigos, amor, oportunidade, risadas, liberdade. Uma parte disso é querer mais bem estar material.

E, nesse aspecto, o socialismo cubano tem, ao menos, duas classes plenamente visíveis. A primeira é daqueles que tem acesso ao dinheiro que vem do exterior, enquanto a segunda abrange todo o resto da população. Essa diferença é institucionalizada. Em Cuba, circulam duas moedas: o peso conversível (CUC, reservado aos estrangeiros) e o peso cubano (CUP, para o resto da população).

O salário mensal médio em Cuba é de menos de 20 dólares (~ 460 CUP). Mas como o CUC é mantido em paridade com o dólar, quem tem acesso a ele passa a ter um bem estar muito maior que o restante da população. Entre a primeira classe se incluem, entre outros, profissionais de hotelaria, garçons, taxistas, prostitutas, guias de viagem e, claro, a cúpula da burocracia estatal.

Uma gorjeta de dois dólares/CUCs, troco para os turistas, significa 10% do salário médio de um cubano. As oportunidades dessas duas classes são distintas porque a primeira tem acesso a um universo distinto. Como diz uma das personagens do filme, se você é cubano, “antes de ver um turista você pode sentir seu cheiro, porque eles usam um tipo de sabão que não existe aqui”.

Os que não tem acesso aos CUCs tentam saciar aqueles desejos que o socialismo não atende pelas vias que lhes restam. Fazem-no por vias apelidadas de sociolismo. Se você não tem acesso à burocracia ou aos estrangeiros, você sacia seus desejos pelos laços que unem você a seus parceiros (“socios” em espanhol). “- As lojas estão vazias mas, se você conhece as pessoas certas, tudo se pode comprar”, diz uma das personagens da película.

Numa economia reprimida, os que têm acesso aos bens reservados à elite burocrática ou aos estrangeiros funcionam como canais que fornecem bens para o resto da população. Mas, como em todo mercado negro, quem toma parte nessas transações corre altos riscos e há ampla restrição de oferta. Os bens, portanto, acabam custando muito mais caro do que em uma economia livre.

(Parênteses: o Brasil experimentou algo parecido quando nos anos 1980. O congelamento de preços imposto pelo Presidente José Sarney com o Plano Cruzado causou um grande desabastecimento. Coisas tão banais quanto a compra de carne passou a ser feita no mercado negro – com preços muito altos.)

Em uma das cenas, o protagonista consegue comprar, no mercado negro, medicamentos que costumeiramente faltam no sistema público de saúde. Ele consegue fazê-lo ao trocar os remédios por uma máquina fotográfica digital vinda de Miami. Em outra, o mesmo rapaz consegue um motor de barco, que ele informa ao vendedor que servirá para cruzar um rio. O vendedor entende e responde ironicamente: “- Esse motor vai ser suficiente para cruzar o rio de 90 milhas que você vai enfrentar”. Noventa milhas é a distância entre Cuba e os Estados Unidos.

Farmácia

Retratação de uma farmácia paralela em Cuba (Una Noche, 2012/13)

Esse desejo que muitos cubanos de ir aos Estados Unidos não tem nada a ver com os vizinhos do Norte serem melhores que os cubanos. Como retrata essa peça artística, os cubanos são tão criativos, trabalhadores, empreendedores e inovadores quanto americanos ou pessoas que vivem em outros países. A economia paralela da Ilha demonstra isso claramente.

Tal desejo é uma reação às barreiras, internas e externas, que foram impostas à prosperidade dos cubanos. Voltaire dizia que o comércio torna as pessoas livres e que a liberdade faz o comércio prosperar. O desejo de comércio (doméstico e internacional) que se expressa tão claramente no mercado paralelo de Cuba é, no fim, um desejo de liberdade.

goesCarlos Góes é analista econômico com interesses em econometria, economia do desenvolvimento, filosofia política e antropologia. Fez seu mestrado em Economia Internacional na Universidade Johns Hopkins e sua graduação em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. É co-fundador da rede Estudantes pela Liberdade no Brasil e da Aliança pela Liberdade. Publicou em periódicos internacionais e na imprensa nacional. Mora em Washington, DC, onde se divide entre think tanks e organismos multilaterais. Apesar disso, ele garante que aprendeu muito mais pagando multas na biblioteca e tomando cerveja com seus amigos do que em sala de aula.

Assista ao trailer do filme, que infelizmente está proibido em Cuba. O filme também está disponível no Netflix.

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