Por Beatriz Martins

Longe de ser um movimento polarizado, o feminismo possui inúmeras correntes teóricas que tornam qualquer generalização ou estereotipação do mesmo impossível. Algumas destas correntes possuem ideais absolutamente opostos, gerando grandes divergências internas, talvez a maior delas envolvendo feministas radicais e mulheres trans*. A gênese deste conflito reside principalmente na conceituação para umas e outras do que é o gênero e quais fatores são determinantes para a separação dos indivíduos entre o lado opressor e o oprimido na hierarquia deste.

O feminismo radical entende o gênero como uma estrutura estática segundo a qual os seres humanos são classificados pela sociedade quando nascem e dela recebem a socialização condizente com seu sexo biológico. A partir desta socialização, segundo elas, é que se transmitem os privilégios ao sexo masculino. Por isso, a ideia de gênero para o feminismo radical é necessariamente desvantajosa para as mulheres e vem sempre atrelada a estereótipos e papéis a serem cumpridos, e por esse motivo deve ser eliminada. Nada no feminismo radical afirma que alguém que foi classificado pela sociedade ao nascer como homem não pode se vestir/andar/falar/pensar como uma mulher (inclusive a ideia de que existe uma maneira específica de as mulheres se vestirem/andarem/falarem/pensarem deve ser abolida), mas segundo seu conceito de gênero, esta pessoa não é uma mulher pois sua socialização não foi a de uma mulher.

Anos depois do surgimento da Teoria Radical, ativistas trans* trouxeram um novo entendimento do que é o gênero. Para elas, o gênero é a uma percepção subjetiva, isto é, a forma como alguém enxerga-se, que pode ou não ser estar alinhada com o sexo biológico. Elas argumentam que a experiência de pessoas trans* não se resume somente à vontade de vestir/andar/falar/pensar como o sexo oposto, mas sim à uma condição psíquica inteiramente diferente da de pessoas cis. Além disso, nem a socialização feminina nem a masculina é uniforme para todos os indivíduos, de forma que ela não pode ser utilizada como critério para a definição de quem é mulher e quem é homem.

Na teoria, estamos apenas falando de conceitos de gênero diferentes e não mutuamente exclusivos, já que uma teoria trata da forma como a sociedade vê o indivíduo e a outra, da forma como o indivíduo se vê. Entretanto, na prática, estas divergências justificam um discurso de teor altamente transfóbico por parte das radfems.

Da alegação de que mulheres trans* são homens que escolheram viver um papel feminino (o que, segundo elas, não altera sua condição de homem) decorre a exclusão das mulheres trans* dos espaços de discussão exclusivamente femininos promovidos por elas. Essas feministas, chamadas de TERFs – Trans Exclusionary Radical Feminist – usam o argumento de que uma mulher trans*, ao se dizer mulher, está se apropriando de uma identidade que não lhe pertence para roubar o protagonismo de um movimento que luta contra os privilégios masculinos – privilégios estes que foram transmitidos à mulher trans* durante sua socialização masculina, ao que as transfeministas respondem que ser socializado em um gênero com o qual não se identifica não é privilégio nenhum, e que não existe a escolha de se ver como o gênero oposto (e por extensão desejar viver como tal), já que a transgeneridade vem do berço.

Às feministas radicais falta empatia para compreender que a opressão sofrida por mulheres trans* resulta da interação entre o sexismo e a transfobia, e que sua socialização masculina não as protege de ocupar esta posição de vulnerabilidade e invisibilidade social. Apesar de possuir pontos bastante consistentes, a teoria radical não abarca essa questão da fluidez do gênero, a qual já foi abordada por transfeministas posteriormente e tornou o radicalismo um tanto obsoleto. O diálogo entre diferentes correntes teóricas é indispensável e contribui para o fortalecimento do movimento, mas a tolerância a qualquer forma de opressão e de restrição às liberdades individuais é totalmente oposto à postura libertária, de modo que a transfobia dentro do feminismo deve ser problematizada e criticada para que este se torne um movimento de empoderamento feito para todas as mulheres, independentemente do seu sexo de nascimento.

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Beatriz Martins é estudante e militante feminista em formação. Tem interesse em praticamente tudo, desde política até os alfinetes da camiseta da Joan Jett (principalmente os alfinetes da Joan Jett). Se não está discutindo alguma coisa relacionada a libertarianismo, feminismo interseccional ou se esforçando (em vão) para ser vegetariana, provavelmente está assistindo a algum filme e procurando os erros de continuidade.

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