Nestes tempos sombrios, um homossexual assumir-se liberal é quase como sair do armário pela segunda vez. Talvez por um motivo apenas: os movimentos de esquerda assumiram a gerência da minoria e pensam falar em nome dela. Mas Foucault, um dos mais influentes filósofos do século XX e homossexual assumido, rejeitava esta oposição e chegou mesmo a flertar com o pensamento de liberais como Hayek no fim de sua vida. E não é tão difícil enxergar a compatibilidade entre liberalismo e a homossexualidade.
Por experiência própria, penso que a medida em que querem se intrometer na vida afetiva de um homossexual, aumenta o repúdio dele pela vigilância dos outros sobre a vida privada.
Acredito, portanto, que o número de homossexuais que prezam pela liberdade individual, pelo consentimento entre adultos e outras ideias liberais, deveria ser maior num mundo onde insistem em se meter na sua vida particular.
Esses e outros direitos fundamentais, como a liberdade de expressão, são expedientes importantes do liberalismo. E tendo crescido num ambiente de exclusão, sem poder me assumir durante muitos anos, fui obrigado a pensar por conta própria; portanto, a antipatia por poderes instituídos, centralizados e grupelhos ideológicos, que pensam por mim, foi um processo natural na minha formação.
Vejo uma séria compatibilidade entre as ideias do liberalismo e a homossexualidade. A liberdade do indivíduo é um valor que não pode ser superado em nome de uma entidade coletiva e centralizada.
No entanto, nestes tempos sombrios, um homossexual assumir-se liberal é quase como sair do armário pela segunda vez. Li esta outro dia: “E você, já deu lampadadas num liberal hoje?” Como a frase foi dita por um esquerdista, não houve a devida indignação.
No meio gay é difícil encontrar um liberal assumido. Talvez por um motivo apenas: os movimentos de esquerda assumiram a gerência da minoria e pensam falar em nome dela.
Tentam ligar o liberalismo a coisas como o conservadorismo, a direita de farda e o capeta. No que vale chamar liberais de fascistas entre outras coisas.
As mentes iluminadas dessa esquerda cucaracha fogem da palavra liberdade como uma gazela foge dos grandes felinos. Nada mais natural, já que é função típica da esquerda pedir por novas regulações, intromissão do Estado na vida privada, no trabalho, na educação dos filhos, no acordo voluntário entre adultos, no direito de adquirir bens e na vigilância sobre todos. Sim, na vigilância, pois pedir novas regulações implica sempre em novas punições, em novos crimes e em mais fiscais na praça. Expediente que nada tem a ver com o liberalismo.
Em seu último seminário, “O Nascimento da Biopolítica”, Foucault, o pensador festejado pela esquerda, apresentou as ideias de pensadores liberais, como o economista austríaco Hayek, para o seu público. Alguns estudiosos acreditam que, se tivesse vivido mais alguns anos, ele próprio se tornaria um liberal – no fim da vida, Foucault era um antimarxista e anticomunista assumido.
Foucault entendeu que o principal conceito do liberalismo é a pluralidade, a defesa da diversidade e da liberdade do indivíduo. Ele estava particularmente interessado em conceitos de Estado e de minorias apresentado por Hayek, e fascinado com a ideia de um mundo descentralizado descrito pelo liberal.
Em “The Constitution of Liberty”, Hayek diz que não era porque uma maioria não gostava de algo que ela tinha o direito de proibí-la: “O exemplo mais evidente disso em nossa sociedade é o tratamento da homossexualidade. Uma prática privada entre adultos, por mais repugnante que seja para a maioria, não é um tema apropriado para a ação coerciva do Estado.”
O liberalismo joga a questão: onde é necessária a intervenção do Estado? Há alguns anos, acreditava mesmo que os homossexuais eram mais capazes de absorver as ideias de liberdade.
Guy Franco nasceu em 1984, mora em São Paulo, de onde sai só para comer. Em 1999, pegou homossexualidade no metrô – aquele monte de gente junta, as janelas fechadas. Já foi bancário, designer e videoartista. Em 2008 criou o blog coletivo Canudos Coloridos. Foi colunista da revista ‘Alfa’ em 2012. Você pode conhecer mais em seu blog no Yahoo ou segui-lo no twitter.
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