A recuperação mais lenta da economia brasileira neste ano mostra que 2018 não vem entregando o que prometia. O PIB brasileiro cresceu 0,4% no 1º trimestre de 2018 na comparação com o trimestre anterior. Apesar de ser a quinta alta seguida – boa notícia para o país, que há pouco saiu de uma grave recessão – o desempenho frustrou as projeções mais confiantes, que esperavam uma rápida decolagem esse ano.
Tal resultado indica uma recuperação sujeita a tropeços, mais gradual e em linha com as expectativas menos otimistas para o crescimento do PIB este ano, que geraram uma onda de revisões nas projeções dos economistas. No Boletim Focus, no qual o Banco Central coleta as expectativas de economistas do setor privado, a previsão de crescimento em 2018 caiu pela quarta vez seguida, de 2,50% para 2,37%. A previsão do próprio governo também mudou, de 2,97% para 2,5%.
Apontando para uma retomada mais lenta de diversos indicadores, as novas estimativas revelam que havia otimismo demais sobre a economia brasileira. Após a última queda do PIB no quarto trimestre de 2016 e com a crise ainda no retrovisor, a economia brasileira cresceu 1% em 2017 e as apostas eram de uma retomada mais rápida em 2018.
Agora, há certezas de que o caminho até o patamar pré-crise será mais longo e difícil, mas não faltam dúvidas no ar. Afinal, o que mudou de 2017 para cá? Por que 2018 tem decepcionado os analistas? O que tem definido o ritmo de recuperação da economia brasileira?
O contexto internacional piorou para o Brasil
Um rápido olhar para o cenário internacional em 2018 aponta condições bem diferentes daquelas vivenciadas no ano passado. Atentos ao movimento de aumento das taxas de juros de algumas economias avançadas – em especial, nos EUA -, após anos com juro real negativo, os fluxos financeiros internacionais vêm se ajustando e, nessa direção, a economia global tem assistido o fortalecimento do dólar e o menor interesse pelos emergentes.
Naturalmente, o dinheiro flui para onde se encontra retorno com o menor risco. Com nossos juros em baixa, e os dos EUA em alta, a maior demanda por ativos em dólar e menor por ativos em real têm enfraquecido a moeda brasileira. O dólar comercial encerrou o último dia 18 cotado a R$ 3,75/US$ na venda – maior valor em 2 anos. Aumentando a instabilidade do cenário externo, destacam-se ainda as tensões comerciais e a alta do petróleo, que traz preocupações sobre seus efeitos inflacionários.
No gráfico abaixo, é possível ver a queda do diferencial de juros (diferença entre taxa básica de juros no Brasil e EUA) e a taxa de câmbio. É cada vez menos vantajoso manter ativos em real, na comparação com o dólar e outras moedas de países mais seguros. Assim, espera-se que menos capitais internacionais cheguem ao Brasil, dado o risco inerente ao nosso país.
Num cenário de risco e incerteza, faz pouco sentido investir visando um futuro melhor
Ao lado de tais incertezas no front externo, é possível destacar imprecisões dominando também o cenário doméstico. Estas podem ser atribuídas, principalmente, ao ainda indefinido panorama eleitoral de 2018. Segundo especialistas, trata-se de um dos processos eleitorais mais incertos desde a redemocratização, já que são pouco conhecidas, até então, as alianças partidárias e as agendas dos candidatos.
Riscos e incertezas são precificados constantemente pelo mercado, contribuindo para frear a confiança dos agentes. O investimento privado, por exemplo, que exige a expectativa de lucro provável no futuro, ainda não mostrou fôlego. Entre as explicações para dificuldade na retomada desse investimento, estão o alto índice de ociosidade da indústria e o elevado nível de endividamento.
Quem pode produzir mais recorrendo à capacidade ociosa das fábricas não precisa realizar novos investimentos por enquanto. Quem tem dívidas, em geral, investe menos.
De acordo com os dados mais recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 2018, uma em quatro empresas no país (27%) diz ter capacidade de produzir mais do que a demanda por seus produtos. Outras 64% declaram já ter capacidade instalada para atender demanda prevista. Enquanto isso, só 9% declaram estar abaixo do que a demanda exige.
Adequação da capacidade instalada para atender à demanda prevista
Participação (%) no total de respostas válidas
Fonte: CNI.
O gráfico abaixo mostra como a participação do investimento no PIB caiu durante a crise e parecia se recuperar em 2017. O resultado do primeiro trimestre de 2018 sugere uma estagnação desse processo, e decepcionou analistas.
O alto desemprego prejudica a recuperação do consumo
Com a indústria nacional encerrando o primeiro trimestre estagnada, comparada com o trimestre anterior, a velocidade das contratações também se mostrou contida. A taxa de subutilização da força de trabalho chegou a 24,7% no 1º trimestre de 2018, a maior desde que os dados começaram a ser coletados, em 2012. A taxa de desemprego segue preocupante com sua terceira alta trimestral seguida, alcançando 13,1% no último resultado divulgado.
Nesse cenário, é possível entender a desaceleração na trajetória de crescimento da massa salarial – a soma dos salários da economia. Além disso, perdeu-se, nesse ano, o estímulo provocado pelos resgates de contas inativas do FGTS, efeito observado em 2017. O custo do crédito, por sua vez, permanece elevado mesmo após as rodadas de corte da Selic. Em conjunto, tais fatores colaboram para resistência ao crescimento do consumo das famílias e, logicamente, menor crescimento econômico esperado para 2018.
A menor confiança associada a esse componente da demanda pode estar, em parte, relacionado com o aumento da desigualdade no ano passado. Isso porque, famílias mais pobres tem maior propensão a consumir. Como já publicamos neste Mercado, a renda dos 25% mais pobres teve queda real em 2017, enquanto o topo da pirâmide (5% mais ricos) obteve crescimento real.
De modo geral, oferta e demanda parecem travadas, sem um motor de recuperação claro, adiando a decolagem real da economia.
Em meio a denúncias de corrupção, Temer fracassou na aprovação de reformas
Ao assumir a Presidência da República, o atual governo montou uma nova equipe econômica para “colocar o Brasil nos trilhos”. A disposição reformista da nova liderança passava a mensagem de um governo diferente do anterior, então associado à crise econômica.
A PEC do Teto do Gastos trazia a ideia de que, enfim, a sustentabilidade fiscal era uma prioridade do governo. As reformas necessárias ao ajuste das contas do governo pareciam sair, finalmente, do papel e os indicadores de confiança refletiram essa onda de otimismo.
Apesar de ter aprovado projetos polêmicos – como o próprio teto dos gastos, a reforma trabalhista, a reforma na taxa de juros do BNDES e a reforma do ensino médio -, a base do atual governo foi se dissipando gradativamente. Recentemente, Temer conseguiu o recorde de vetos presidenciais derrubados pelo Congresso, desde a redemocratização.
O isolamento político de Temer acentuou-se a partir da delação do empresário Joesley Batista, episódio que rendeu ao presidente sua primeira denúncia. A expectativa de guinada positiva do governo, que prometia liderar a reorganização da economia, acabou rapidamente diante do caos político.
Tais tensões políticas do governo tiveram seu impacto na economia, retardando o enfrentamento articulado e consistente do desequilíbrio fiscal e, logo, adiando ainda mais a recuperação econômica. A reforma da Previdência, questão chave para o equilíbrio do orçamento nos próximos anos (ver gráfico abaixo), teve sua votação adiada diversas vezes. A baixa perspectiva de aprovação foi reforçada depois de intervenção federal no Rio de Janeiro, já que não é possível aprovar emendas à Constituição durante a vigência de alguma intervenção federal.
No gráfico abaixo, é possível ver a crescente despesa previdenciária, que ocupa mais de metade do orçamento público. Sem reforma, há grande incerteza quanto à capacidade do governo de bancar suas contas. Consequentemente, fica menor o incentivo de investir num país cujo futuro é mais arriscado em termos de carga tributária, dívida pública e inflação.
O problema das contas públicas está se agravando
Sem conseguir criar condições para que o referido Teto dos Gastos consiga cumprir seu papel de âncora fiscal, estimativas apontam para seu descumprimento já nos próximos anos. O presidente Temer transferiu para o próximo governo um desafio duplo: lidar com despesas obrigatórias em contínua ascensão; e, ao mesmo tempo, com receitas em queda estrutural. Adiar o enfrentamento deste impasse era a única saída para um governo que viu sua capacidade de articulação reduzida consideravelmente.
O gráfico abaixo detalha a trajetória dos gastos previdenciários (RGPS, RPPS e BPC LOAS/RMV) nos próximos anos. Mesmo assumindo um estrangulamento das demais despesas, é cada vez menos provável que o governo cumpra o teto de gastos.
O governo permanece tendo que lidar com um orçamento extremamente rígido. A maioria das despesas tem dinâmica própria, crescendo obrigatoriamente por lei. Nenhuma equipe econômica pode controlar essas despesas, pois elas dependem do Congresso Nacional. A reduzida margem de manobra de um país que gasta a larga maioria dos impostos com previdência e salários levou o governo a priorizar cortes em investimentos. O investimento público é sacrificado porque as outras opções são inviáveis economicamente, como o crescimento eterno da dívida, ou politicamente, como a aprovação de reformas ou aumento da carga tributária.
Em 2017, o investimento público chegou ao menor nível em quase 50 anos: 1,17% do PIB. Muitos já tratam esse cenário como um “desinvestimento”, diante da insuficiência desses recursos para cobrir a depreciação dos ativos públicos. Estradas, aeroportos e prédios públicos, afinal, perdem valor ao longo do tempo e investimentos são necessários para sua manutenção.
O nível crítico de investimento traz, por sua vez, dificuldades para o cumprimento de outra regra fiscal: a regra de ouro. Sendo o limite do endividamento do governo fixado pelo volume de suas despesas de capital (compostas, principalmente, por investimentos), o governo tem recorrido a outras fontes de receita para conseguir fechar essa conta. Para 2019, no entanto, o governo já reconheceu sua incapacidade de respeitar tal regra e fez uso da exceção prevista na Constituição, incluindo no PLDO do próximo ano a previsão de crédito suplementar ou especial, sujeita à aprovação do Congresso Nacional.
Dada a fragilidade do governo Temer, caberá ao próximo presidente desfazer esse nó
Dessa forma, é possível destacar duas implicações trazidas pelo desequilíbrio das contas públicas. Por um lado, a redução do espaço fiscal para realização de investimentos limita a capacidade do governo de promover mais crescimento. Por outro, o investimento privado depende do que acontecerá no futuro do país, algo cada vez mais incerto e dependente do próximo presidente.
Resta à população brasileira a constatação prática de que a irresponsabilidade fiscal tem seu custo. O mercado, como já dito, precifica esses riscos e redefine as condições financeiras que, nesse caso, não atuam a favor da recuperação.
Para 2018, até onde a vista alcança, o desmonte das expectativas tem levado os agentes a refazerem suas apostas e caberá ao próximo governo a difícil tarefa de estabelecer as condições para que a economia, enfim, decole.




