Após a entrevista da pré-candidata a presidência Manuela D’Ávila ao programa Roda Viva (TV Cultura), na última segunda-feira (25), surgiram inúmeras críticas aos entrevistadores: ao interpelarem a candidata no meio de suas respostas, estes estariam cometendo ‘manterrupting’ –demonstração de machismo na qual um homem interrompe uma mulher impedindo-a de concluir suas colocações.Como neste Mercado levamos machismo muito a sério, decidimos novamente discutir o assunto aqui amparados em dados e evidências.
Contexto do Manterrupting
Apesar de não se saber ao certo como o termo surgiu, ele se refere a uma percepção de que, em geral, homens interrompem mulheres bem mais frequentemente em decorrência de uma cultura machista. De fato, há evidências dessas interrupções de homens em relação a mulheres em diferentes contextos. Um exemplo, inclusive já abordado aqui, é o estudo de Tonja Jacobi e Dylan Schweers que analisa interrupções na Suprema Corte americana, no qual – além de divergência ideológica – gênero tem um papel importante na causa de interrupções.
Outro artigo que aborda o tema foi publicado em 2014 por Adrienne B. Hancock, pesquisadora de comunicação e gênero. Ao analisar conversas de tema neutro, concluiu-se que mulheres foram cerca de 2 vezes mais interrompidas por homens em conversas de três minutos. Mais: se concluiu que mulheres são mais interrompidas por outras mulheres. Ao falar com uma interlocutora, elas interrompiam cerca de 3 vezes mais do que o faziam com homens. O estudo conclui que baseado nas teorias que explicam o papel de um gênero nos padrões de linguagem e no papel do parceiro de comunicação, há indícios de que a linguagem pode ser mais influenciada pelo esquema de normas de gênero de quem fala do que por suas caraterísticas de gênero propriamente. Então, o ‘manterrupting’ não é um termo esclarecedor, afinal, não só homens interrompem mulheres em detrimento de homens, outras mulheres também fazem o mesmo.
Então, de fato, há evidências de que gênero possui um papel de influência em como o discurso flui. Isto é, na quantidade de vezes em que a fala tende a ser interrompida. Mas qual o gatilho para isso?
Estudo da década de 1970, de Mcmillan et al, já tentava responder essa pergunta. A resposta parece estar justamente na linguagem: mulheres tendem a usar mais formas linguísticas que denotam incerteza quando os homens estão presentes do que quando os homens estão ausentes. Essa aparente insegurança ou incerteza era manifestada por meio do uso de termos como parece, sugere, indica, poderia, provavelmente, possivelmente,entre outros termos que indiquem menor grau de certeza ou ainda cautela. Não à toa são termos muito usados em artigos científicos.
Nesse estudo, tanto homens quanto mulheres julgaram que uma mulher que falava hesitantemente era menos competente do que uma mulher que falava assertivamente. Já quando se tratavam dos falantes do sexo masculino, não se considerava essa diferença de linguagem ao avaliar a competência e o conhecimento. No entanto, as mulheres foram mais influentes ao falar timidamente ou com hesitação para um público masculino, mesmo que também fossem consideradas menos experientes e competentes dos que as mulheres assertivas. Ao mesmo tempo, não havia esse aumento de influência para com outras mulheres, o que fornece evidências de que as diferenças de gênero no uso de termos que marcam incerteza, isenções de responsabilidade, além de proteção, são – provavelmente – uma das variáveis das diferenças de status entre homens e mulheres.
Para além da questão de posição social, no qual esse tipo de linguagem pode comunicar que o falante não tem desejo de melhorar seu próprio status, também pode ser usado como estratégia por outras razões. Como a presença de homens pode torná-las conscientes de seu estilo de fala e preocupadas com o fato de não se comportarem da maneira excessivamente confiante que esperam dos homens. Ainda, mulheres podem falar mais assertivamente para as mulheres do que para os homens porque elas podem sentir que suas colegas são geralmente mais cuidadosas e corretas em suas falas e, conseqüentemente, ser mais importante falar corretamente com as mulheres.
Uma curiosidade apontada pelo estudo foi que homens perceberam uma mulher hesitante como mais digna de confiança e simpática (ainda que menos competente) do que uma mulher assertiva. Já as mulheres a julgavam como menos agradável e digna de confiança. Uma mulher que falou de modo inseguro não era tida como mais competente ou experiente, mas ela ainda era mais influente com uma audiência masculina. Uma possibilidade levantada é que eles considerem seu comportamento como mais ‘normal’ do que o de uma mulher mais assertiva e, consequentemente, podem ter sido menos resistentes a seus argumentos. Então infelizmente, para as mulheres, o uso de linguagem hesitante como uma estratégia de influência sutil compromete sua competência percebida ou diminui seu grau de persuasão para uma audiência mista.
O uso de uma linguagem hesitante por mulheres que parece ser utilizada como uma estratégia de convencimento é, justamente, o mesmo tipo de linguagem que influi na quantidade de interrupções sofridas por mulheres, sejam os interruptores homens ou também mulheres. Isso faz ainda mais sentido se, de fato, o tipo de linguagem utilizada não afeta a percepção que se tem de homens em geral.
Os entrevistadores da Manuela d’Ávila foram Machistas?
Todas as evidências citadas se referem às relações cotidianas entre homens e mulheres. Contudo, entender o funcionamento em termos tão amplos não é o suficiente para tirar conclusões sobre a entrevista da pré-candidata Manuela d’Ávila. De acordo com a Folha de São Paulo, ela teria sido interrompida cerca de 40 vezes ao longo do programa, e por esse número ter sido atipicamente alto, fez com que movimentos feministas considerassem as intervenções dos entrevistadores como fruto de machismo e pedissem uma nova entrevista da TV Cultura com a candidata.
Outros candidatos tiveram suas participações naquele programa analisadas e a Folha constatou que Marina Silva foi interrompida 3 vezes, Guilherme Boulos 9 vezes e Ciro Gomes 8 vezes. No caso do Ciro, ele chegou a interromper seus interlocutores o dobro de vezes do que foi interrompido; Manuela também interrompeu bastante seus interlocutores cerca de 36 vezes – quase tanto quanto foi interrompida.
Mesmo com esses dados é difícil fazer qualquer tipo de comparação: os entrevistadores convidados não eram os mesmos para cada candidato, perfil particularmente mais ou menos agressivo e ainda o grau de divergência ideológica entre entrevistadores e pré-candidato não é algo que deva ser ignorado. Em outras palavras, há diversas variáveis difíceis de serem controladas nesse caso.
Então, dadas as devidas considerações, a questão central de que se os entrevistadores da Manuela cometeram ‘manterrupting’ ou não acaba dependendo quase exclusivamente do conceito do que seria uma boa prática ao se entrevistar políticos. Isto é, se os bons entrevistadores não devem interromper o candidato; ou, ainda, se deve ser admirado aqueles que interpelaram com maior firmeza o entrevistado.
Muitos dos defensores de Manuela D’Ávila afirmaram que a função dos entrevistadores era ouvir sem fazer interpelações. Caso notório nos Estados Unidos, que se contrapõe a essa ideia, ocorreu com Paul Thompson, chefe executivo da rádio RNZ. Ele defendeu publicamente seus jornalistas da acusação de serem ‘rudes’ ou muito agressivos. Em sua opinião, alguns segmentos do jornalismo devem ser combativos:
“Muitos jornalistas, particularmente os políticos, agora são treinados (…) Eles são auxiliados por profissionais de relações públicas cujo único trabalho é aconselhá-los sobre como neutralizar ou evitar tópicos sensíveis.
Um dos truques mais frequentes é tentar ignorar a questão e, em vez disso, continuar retornando aos seus pontos de discussão cuidadosamente redigidos que memorizaram. Em tais circunstâncias, somos obrigados a insistir que eles respondem à pergunta, mesmo que isso crie tensão no ar.”
Fica claro que o ponto de discordância, no fundo, é sobre como políticos e grandes figuras publicas devem ser entrevistadas. Em outros países é comum que jornalistas coloquem políticos contra a parede em busca de respostas. Mesmo que de forma agressiva, o objetivo declarado é obter a melhor informação para o eleitor, e é o que defende um guia da BBC que dá dicas de como entrevistar políticos.
Ainda em 2016, a CNN explicou a necessidade de um jornalismo mais agressivo justamente pelo estilo do presidente Donald Trump, e que, no fundo, é justamente o que as pessoas esperavam da mídia: perguntas incisivas e um bom fact-checking.
Logo, se partirmos da premissa de que deveríamos pressionar os políticos a fim de, em vez de discursos decorados de palanque, obtermos como resultado suas posições reais sobre assuntos delicados, a conclusão é de que os entrevistadores dos outros pré-candidatos naquele programa é que falharam.
Uma última questão, todavia, ainda permanece: por que, afinal, tantas pessoas, principalmente feministas, advogaram em nome de uma causa que, embora real para muitas mulheres, não se aplica a uma política experiente como a Manuela D’Ávila?
A jornalista Vera Magalhães, uma dos entrevistadores da Manuela D’Ávila no Roda Viva, deu uma declaração que responde a questão: “Fiz entrevistas com Ciro, Boulos, Bolsonaro e Alckmin. Todos se queixaram de ser interrompidos. Com Ciro virou um debate. Mas diante de uma mulher, Manuela, a interrupção vira ‘manterruption’. Ou seja, houve capitalização política em cima de um tema sério como machismo, mesmo que ele não tenha ocorrido de fato. Afinal, todos nós mordemos essa isca: falamos hoje sobre Manuela D’Ávila.