Você sabia que a seleção de futebol feminino ganhou o hepta campeonato da Copa América em abril deste ano? Você sabia que durante o torneio, o time de Marta e companhia venceu alguns dos jogos por placares largos como 8-0 e 7-0? Provavelmente não… E isso em grande parte explica porque a Marta ganha muito menos do que o Neymar.
Alguns podem argumentar que esse desconhecimento se daria por causa das emissoras que não transmitem os jogos, mas, na verdade, isso se dá justamente porque o público não acompanha os jogos da seleção feminina, tampouco times de futebol feminino em geral. Isso resulta em não gerar renda para que a “marca Marta” valha o suficiente para haver times e patrocinadores a fim de pagar a ela o que você acha que seria mais justo.
Se não há procura pelo nome dela, se não há procura pelos jogos, se não há interesse em saber quando a seleção está em campo, dificilmente alguém vai gastar o próprio dinheiro para “forçar o esporte goela abaixo do público”.
Basta olhar o Google Trends para entender a diferença entre Marta e Neymar:
O mesmo vale quando comparamos a seleção feminina e a masculina:
“Mas a seleção masculina possui treinos televisionados, há repórteres acompanhando tudo. É só fazer o mesmo!”
Será?
Ou será que a seleção masculina possui treinos televisionados, uma equipe inteira de repórteres designados e milhões de reais em patrocínio porque as pessoas estão dispostas a assisti-la? Você acha mesmo que uma empresa de televisão iria gastar tempo precioso da sua programação acompanhando algo que não tem público? Antes de patrocinadores investirem para estampar suas marcas em um produto, são feitas pesquisas de mercado para analisar o apelo junto ao público; diante de resultados negativos, preferem optar por produtos já estabelecidos no mercado cujo retorno é mais garantido.
Indo um pouco aos dados: a seleção feminina alcançou altas audiências durante as olimpíadas enquanto vencia, tendo números parecidos com o da contestada seleção masculina — que empatou seus dois primeiros jogos na fase de grupos. Mas, em média, a seleção masculina sub-23 ainda teve audiência maior que a seleção principal feminina durante as Olimpíadas do Rio. Em jogos do torneio internacional de Brasília, em 2014, a seleção feminina deu audiência maior à Band do que a média dos jogos do brasileirão na mesma emissora, mas mesmo assim ficou atrás de programas como o Globo Rural e do Domingo Maior da Rede Globo — isso sem contar jogos do Brasileirão que a emissora já exibe.
Quando transmitiu jogos on-line, no embalo das Olimpíadas do Rio, a CBF conseguiu uma audiência para o futebol feminino na mesma dimensão daquela que o São Paulo, com metade dos seguidores no Facebook — lugar onde os jogos eram transmitidos –, conseguiu para as suas divisões de base.
Quando a gente compara a presença no estádio para Copas do Mundo e Olimpíadas, a gente vê que a diferença se mantém. Usando o exemplo das Copas do Mundo que ocorreram nos EUA, a gente vê que a Masculina em 94, mesmo com o time masculino americano não sendo tão bom, levou aos estádios 85% a mais pessoas por jogo que a Copa do Mundo Feminina de 99. Vale ressaltar que vários estádios usados no torneio em 94 também foram utilizados em 99, como o Rose Bowl, Gillette Stadium, Soldier Field, Giants Stadium, e Stanford Stadium. Nas Olimpíadas do Rio, um padrão parecido esteve presente: enquanto o torneio masculino levou uma média de 31.500 pessoas por jogo, o feminino levou 24.500. Os dois torneios aconteceram simultaneamente, nas mesmas cidades. Tanto Marta quanto Neymar estavam em campo para o Brasil.
Vale ressaltar que o torneio Olímpico de futebol masculino é considerado “semi-profissional”, com limite de idade para jogadores (sub-23). Enquanto o torneio feminino é totalmente profissional, com as principais jogadores de todos os países em campo. Mesmo com isso, o público em geral preferiu ver o torneio masculino e as futuras estrelas das seleções, a assistir a rainha Marta e as profissionais americanas, alemãs, canadenses…
Seleção feminina nas Olimpíadas do Rio em 2016
Para não enviesar as análises, comparando torneios que podem ser considerados diferentes, vamos pegar casos simples dentro do futebol masculino mesmo e fazer alguns questionamentos que são relacionados a diferenças de receitas: por que o contrato de patrocínio do Flamengo e do Corinthians com a Caixa rendia mais dinheiro aos times do que o contrato da mesma empresa com o Vasco, Chapecoense, Atlético Paranaense e Vitória (somados)? Ou se não quisermos falar da Caixa, porque pode haver muita politicagem por trás, por que o contrato da Adidas com o Flamengo é mais rentável que aquele com o São Paulo? Ou por que a Nike paga mais ao Corinthians do que ao Internacional?
Por um simples motivo: Corinthians gera mais valor para a Nike — seja em venda de camisas, seja em exposição da marca — do que o Inter. Eu posso não gostar disso, posso achar que o time paulista é corrupto — vide os escândalos de Itaquera –, mas é inegável que ele têm mais torcedores e isso gera um fluxo de caixa maior para a fabricante de material esportivo. Assim como na situação da Adidas com o Flamengo: um time de mais de 30 milhões de torcedores gera visibilidade e receitas maiores do que um de 15 milhões.
O mesmo vale para o Neymar quando comparado com a Marta. O atleta de Mogi das Cruzes joga em Paris para um público médio de mais de 40 mil pessoas (94% de ocupação do estádio do PSG em cada jogo) e jogava em Barcelona para um público médio de mais de 70 mil pessoas em sua última temporada (sendo que o clube possui mais de 140 mil sócios). A rainha de Dois Riachos não consegue levar em média mais do que 7 mil pessoas para o estádio (pouco mais de 27% de sua lotação, sendo que o time masculino do Orlando City teve uma média de 98% de ocupação da mesma localidade).
Ingressos para ver Neymar chegam a custar até 14 mil euros. Ingressos para ver a Marta ficam na casa de 10 a 20 dólares. A chegada de Neymar ao PSG elevou o valor da marca do time em aproximadamente 500 milhões de euros (50% de valorização), enquanto a chegada de Marta em pouco alterou a valoração da marca do Orlando Pride, time que já contava com a jogadora americana mais famosa da atualidade — Alex Morgan. A seleção masculina joga para estádios cheios mesmo com ingressos na casa de 100 a 200 reais. A seleção feminina por diversas vezes não consegue encher um estádio, a despeito de ingressos gratuitos ou na casa de 10 a 20 reais. Foram vendidas 120 mil camisas de Neymar no primeiro mês desde sua chegada ao seu clube. No caso de Marta, jogadora contratada com status de estrela pelo Orlando Pride, é bem difícil encontrar qualquer dado sobre o número de camisas vendidas. Na verdade, de acordo com Ilisa Kessler, diretor geral do FC Gold Pride, por quem Marta jogou em 2010:
“Não estávamos enchendo o estádio e camisas da Marta não estavam sendo vendidas em grandes números. (…) Foi uma espécie de experimento para nós com o intuito de ver se teria um aumento considerável em receitas que poderiam ser obtidas devido a uma jogadora como a Marta. E isso simplesmente não aconteceu.” (Ilisa Kessler, FC Gold Pride)
Lembrando que quando Marta foi contratada pelo Gold Pride, ela já havia ganhado 4 vezes consecutivas o prêmio de melhor jogadora do futebol feminino e seria novamente eleita a melhor jogadora do mundo naquela temporada.
Marta quando jogava pelo FC Gold Pride
Neymar sempre jogou em ligas que são financeiramente viáveis: têm bons contratos de televisão, tem vários patrocínios, tem times que mesmo endividados conseguem se manter sem que a federação do país pague o salário de parte do seu elenco. Marta atualmente joga no maior mercado para o futebol feminino do mundo, os EUA, mas seu time em parte só é economicamente viável porque várias das atletas americanas do Pride tem seus salários bancados pela US Soccer Federation. Um dos times anteriores de Marta, o Tyresö FF, foi à falência mesmo que ele não tivesse de pagar o salário da jogadora. Até 2015, 7 dos últimos 8 times de Marta tinham ido à falência em algum momento.
Alguns argumentaram que Marta possui mais gols pela seleção da CBF que Neymar, logo, deveria ganhar mais.
Ranking de gols da CBF compartilhado no Facebook por Manuela D’Ávila (https://goo.gl/PwKF4E)
Mas isso exige você assumir que os gols marcados pelos dois jogadores têm o mesmo valor devido ao nível de relativo de dificuldade dos jogos e que eles geraram mesmo resultado. Primeiramente, o futebol feminino tem um nível físico e tático em geral inferior ao futebol masculino. Isso não deveria ser controverso de se falar. As seleções principais femininas perdem jogos para times de divisões de base masculinos. Um exemplo foi a derrota da seleção brasileira feminina, que viria a disputar as Olimpíadas do Rio, para jogadores com 15 anos ou menos do Ceará. No mesmo ano, as jogadoras da Austrália perderam por 4 a 2 para o sub-15 masculino do Ceará.
Outro fator importante, no futebol feminino, por questões simplesmente biológicas, jogadoras tendem a ser menores e ter menor impulsão. Considerando que o tamanho do gol é normalmente o mesmo do futebol masculino, marcar gols se torna algo mais fácil, visto que as goleiras conseguem cobrir uma área menor. Isso explica, parcialmente, a quantidade enorme de placares dilatados em jogos femininos mesmo em torneios oficiais. Junte-se a isso o fator que o futebol feminino como modalidade organizada é bem mais recente que o masculino (o primeiro jogo da seleção masculina foi em 1914, enquanto o da seleção feminina foi em 1986) [1], entende-se que o desenvolvimento principalmente tático do esporte feminino ainda está aquém daquele do masculino. Houve menos tempo para evolução.
Espaços não são tão restritos, a velocidade de jogo é bem diferente, o posicionamento das jogadoras segue uma dinâmica totalmente diferente e isso altera a capacidade dos times em atacar e defender. Comparações similares podem ser feitas entre times no futebol masculino, como no caso Santos e Barcelona em 2013, ou comparando o jogo masculino das décadas de 40 a 60 com o jogo no presente (Leônidas e Puskás, por exemplo, tiveram médias de gols mais altas que Marta e Cristiane).
Marta, com todo o seu talento, assim como Cristiane, se aproveitam bem das diferenças técnicas, táticas e físicas do jogo — assim como o Santos de Neymar o fez contra o Naviraiense e o Guarani em 2010 — e conseguem ter médias de gols inimagináveis para jogadores de seleções masculinas da atualidade. Infelizmente isso deturpa estatísticas e, principalmente, porque muita gente nos faz pensar que necessariamente o jogo feminino e o jogo masculino estão no mesmo patamar de evolução e que as diferenças de pagamento e público seriam apenas por causa de sexismo.
Essa diferença de ritmo e nível de jogo também serve para afastar o público. Da mesma forma que torneios de base não tem um público tão grande quanto aqueles de times principais, ou torneios estaduais não conseguem ter a mesma média do Brasileirão. Mesmo com esse cenário, Marta ainda é a jogadora de futebol feminino mais bem paga da atualidade, ganhando muito mais dinheiro que a média dos jogadores masculinos, enquanto Neymar está em terceiro no ranking masculino — alguns bons milhões atrás de CR7 e Messi.
Mas se você quiser melhorar o salário da rainha, é fácil: vá assistir jogos do Orlando Pride no estádio. Quando estiver visitando a loja do clube, compre a camisa dela ao invés da camisa do Kaká (que jogou no Orlando City SC, que é o ‘clube-pai’ do Pride). Perturbe a sua empresa de TV a cabo para que eles coloquem a liga dela no pay-per-view e compre os jogos para assistir. Gere audiência para todos os jogos de futebol feminino que estiverem na TV (cerca de 40 jogos do Campeonato Brasileiro e todos os da seleção). Se tiver um time em sua cidade, se dê ao trabalho de ir assistir aos jogos no estádio — e leve todo mundo que você conhece junto. Na cidade de Manaus há um excelente exemplo disso.
Pode demorar, mas se o público for aos estádios, a TV e os patrocínios vão acompanhar como foi o caso com o futebol masculino em que os grandes contratos de patrocínio e transmissão vieram bem depois de décadas com estádios lotados. Pelé ganhava dinheiro enchendo estádios. Neymar também ganha dinheiro enchendo estádios. O mesmo acontecerá com Marta quando estádios lotarem por sua causa.
Vale lembrar que, as atletas da seleção feminina já ganham mais do que 96% dos jogadores masculinos. Clubes podem e devem fazer mais para expandir o mercado ainda pouco explorado do futebol feminino — e mesmo atrair torcedoras para os times em geral –, mas mesmo projetos feitos por eles só vão até certo ponto sem a presença de público nos estádios (vide o caso das Sereias da Vila, divisão feminina do Santos que fechou em 2012 por ser deficitária e o clube precisar de divisas – justamente para manter Neymar.
Focar esse debate mercadológico tão somente em igualdade de gênero quando o retorno dos jogadores é bem diferente aliena pessoas que poderiam estar interessadas em ir assistir os jogos e gerar retorno para o time. Ao invés de ficar politizando o tema, seria mais produtivo gerar interesse contínuo e fazer com que as nossas jogadoras sejam valorizadas pela bola que jogam.
Comparação entre receitas de Neymar e Marta, feita em 2016 pelo Globoesporte.com (https://goo.gl/7RrZFD)
Notas:
[1] O futebol feminino como modalidade organizada em parte é bem mais novo que o masculino devido a legislações preconceituosas brasileiras que parcialmente baniram a prática de futebol por mulheres entre 1941 (Governo Vargas) e 1979 (Governo Militar). Sem medidas como essa, talvez o jogo já estivesse mais evoluído e consolidado. Isso também impediu a evolução de outras modalidades olímpicas femininas como lutas e o pólo aquático, contribuindo para o desempenho abaixo do que poderia ser esperado para o Brasil em alguns esportes. Outros países também apresentaram determinações que impediram o desenvolvimento da modalidade, como no caso do Reino Unido em que a Football Association proibia que partidas femininas fossem disputadas em estádios/campos dos seus membros associados. Mas mesmo nos EUA, onde não há história de banimento a nível nacional da modalidade, o esporte não se desenvolveu em um passo tão rápido — indicando que a falta de competitividade a nível internacional pode potencialmente também ser um fator determinante.
[2] Parte do dilema enfrentado pelos times femininos é parecido com a maior parte dos times masculinos. Torneios não duram o ano inteiro, normalmente algo na casa de 3 a 4 meses, salários não são a maravilha que a vida do Neymar nos faz imaginar, patrocínios são quase inexistentes e o público não está lá. Não é questão só do futebol feminino, mas em geral do futebol como negócio. A gente acaba tendo o viés de seleção e focando apenas nos grandes clubes bem estabelecidos, no caso, cerca de 100 times entre séries A e D, mas se esquece que a maior parte dos times brasileiros apenas joga campeonatos estaduais, têm jogadores recebendo na casa de 4 salários mínimos — e mais de 80% ganhando pouco mais de um salário mínimo, além de um nível de desemprego de cerca de 60%.
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