A candidata mostrou um conhecimento sobre o tema que está um pouco além daquele da média da população, mesmo da elite.

Em uma entrevista na terça-feira (31 de Julho) ao programa Central das Eleições da GloboNews, a candidata Marina Silva foi perguntada por que era contrária à pesquisa com células tronco. Para ela, a resposta depende do tipo de célula tronco utilizada. Se forem embrionárias, Marina seria contrária. Sendo células adultas, a candidata seria favorável. Isso gerou um pouco de controvérsia no painel e mesmo nas redes sociais:

Como alguém pode ser contra pesquisa com células tronco em 2018 ?

— elenalandau (@elenalandau) August 1, 2018

Marina Silva se posicionou contra o tratamento com células tronco por questões pessoais e religiosas na Globo news.
Pena dos jornalistas terem que ficar detalhando as perguntas pra ela conseguir entender. Horrivel, péssima candidata!!!!
A Marina não falou nada com nada…

— Denise Flaeschen (@deniseflaes) August 1, 2018

A Marina Silva só peca por ser evangélica e com isso extremista. Ser contra as células tronco é um absurdo.

— Francisco (@lolipop8104) August 1, 2018

O grande problema é que essa história mostra mais o desconhecimento do público sobre o tema do que um posicionamento (religioso) fundamentalista da candidata da REDE. A idéia desse texto é explicar de forma simples quais são os elementos por trás dessa controvérsia.

A diferença entre os tipos de célula

Células são as unidades funcionais e estruturais do corpo humano. As funções podem ser muitas. Algumas se especializam numa função específica, como os neurônios ou fibras musculares. Outras ficam em estado latente, se multiplicando para que haja estoque suficiente quando necessário, como as células da medula óssea.

As células especializadas numa mesma função se combinam para formar os tecidos do corpo. Esses tecidos formam o revestimento dos intestinos, as camadas de gordura que estão sob a nossa pele e diferentes regiões do cérebro.

Quando se especializam, as células incorporam características funcionais e morfológicas do tecido que compõem. Por isso, são chamadas de células diferenciadas (ou especializadas). Em sua maior parte, as células diferenciadas já chegaram num estágio final que as impede de proliferar ou de assumir outras funções. Por exemplo, as hemácias, células vermelhas do sangue, não conseguem virar células do sistema imunológico, por mais que elas tenham a mesma origem.  Da mesma forma, músculos não viram células ósseas.

Onde as células tronco entram nessa história

Alguns tecidos e órgãos apresentam uma população grande de células não diferenciadas que “renovam” o nosso corpo com o passar do tempo. O exemplo mais claro disso é a nossa pele, que mesmo depois de queimada no sol, se recupera [1]. Mas, em muitos outros casos, ou não há uma população de células disponível para repor danos, ou ela não é grande o suficiente para reparar danos em larga escala. Isso fica evidente quando uma pessoa sofre uma lesão grave e perde parte de um órgão. Por exemplo, no caso de um acidente vascular cerebral, em que parte dos neurônios morrem devido a falta de oxigenação e não se regeneram.

Por esse motivo, cientistas estão há décadas estudando mecanismos que possam ampliar a capacidade de regeneração e renovação do corpo humano. Desenvolveram-se pesquisas dedicadas a encontrar estoques de células que ainda estão em fase proliferativa ou a fazer com que células já diferenciadas retornem a estágios não-diferenciados, preferencialmente o mais próximo possível daquele embrionário, quando a especialização celular é mínima. Essa motivação leva desde ao estudo de répteis como a salamandra, capaz de regenerar membros perdidos já adulta, até o estudo de processos embrionários e reprodutivos que culminaram na criação da ovelha Dolly. Assim, descobriu-se a existência de um tipo especial de células que passou a ser chamado de células tronco.

Tipos de células tronco

Células tronco são células não (totalmente) diferenciadas e que possuem duas propriedades básicas:

  1. Capacidade de produzir mais células do seu mesmo tipo;
  2. Capacidade de se diferenciar em outros tipos de células.

Os estudos de embriologia e de histologia descobriram que existem basicamente quatro grupos de células tronco. Esses grupos são definidos conforme a sua capacidade de especialização:

  1. Totipotentes: são aquelas capazes de gerar todos os tipos de tecidos humanos, sejam eles embrionários (corpo humano) ou extraembrionários, como a placenta. Essas células são encontradas na fase inicial do desenvolvimento embrionário, ainda no zigoto.
  2. Pluripotentes: são aquelas capazes de gerar todos os tipos de tecidos do corpo humano e de se especializar em qualquer tipo de linhagem celular, desde uma hemácia ao mais complexo neurônio.
  3. Multipotentes: são aquelas que têm capacidade limitada de especialização, mas ainda podem se diferenciar em vários tipos. Por exemplo, as células da medula óssea se diferenciam nos componentes do sangue, sejam eles linfócitos, responsaveis pela imunidade celular, ou hemácias, responsaveis pelo transporte de oxigenio.
  4. Unipotentes: são aquelas células ainda não totalmente especializadas, mas que só podem se diferenciar em um único tipo. Os linfoblastos, por exemplo, apenas podem se transformar em linfócitos.

Onde encontramos cada tipo de célula tronco?

Organismos humanos adultos, em geral, apresentam células multi e unipotentes. Já os embriões apresentam células pluripotentes. Ou seja, naturalmente, as células adultas humanas não seriam capazes de se especializar em todos os tipos de tecidos necessários para um completo reparo do corpo humano. Percebendo essa diferença, pesquisadores começaram a estudar células embrionárias com o intuito de entender quais são os processos necessários para se controlar a especialização celular e, possivelmente, desenvolver tratamentos capazes de recuperar órgãos e tecidos danificados — uma área conhecida como medicina regenerativa.

E aí que começou a grande controvérsia…

O dilema dos embriões

Há basicamente duas formas de se obter células tronco embrionárias. Ambas envolvem o uso de fertilização in vitro para que se obtenha um embrião. No primeiro e mais complicado caso — desenvolvido recentemente –, uma biópsia embrionária é realizada. Retiram-se algumas das células do embrião, sem destrui-lo, antes que ele seja implantado no útero. As células isoladas na biópsia são então cultivadas e proliferam, gerando uma população de células tronco geneticamente idênticas às do bebê que está se desenvolvendo. Na segunda e mais comum técnica, assim que o embrião atinge o estágio de blastocisto, suas células são isoladas e cultivadas in vitro para uso em pesquisa, num processo que destrói completamente o embrião. Essa é a metodologia padrão de se obter células tronco embrionárias humanas. Ela vem sendo utilizada desde o final da década de 90 e tem apresentado relativo sucesso científico.

Caímos, então, em um dilema ético-moral: é correto fecundar óvulos sem nenhum intuito de se prosseguir com a gravidez? O processo de gerar essas células tronco por si só não seria uma forma de interromper uma vida? Seria aquele embrião uma pessoa ou só um aglomerado de células? [2]

Esses questionamentos levaram ao surgimento de grupos de oposição à pesquisa com células tronco no Brasil, principalmente no campo religioso. Eles começaram a surgir a partir do processo de aprovação da Lei de Biossegurança e estão até hoje presentes de uma forma ou outra no debate. A grande questão, no entanto, é que pouco após a aprovação do marco regulatório brasileiro (Março de 2005), novas formas de se obter células tronco pluripotentes a partir de células adultas foram descobertas.

Desviando da polêmica

Shinya Yamanaka em seu laboratório na UCSF

Em Maio de 2005, pesquisas já reportavam o possível uso de fatores de transcrição para reverter o estágio de diferenciação das células. Esse processo permitiria que células adultas voltassem a um nível quase embrionário. Em Agosto de 2006, Shinya Yamanaka, professor da Universidade de Kyoto, publicou um artigo descrevendo detalhadamente como o uso de quatro fatores de transcrição seria suficiente para induzir pluripotência em células adultas diferenciadas de camundongos. O resultado desse experimento originou as chamadas células tronco de pluripotência induzida (iPSCs, em inglês).

Em 2007, quase simultaneamente, Yamanaka e James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison, descreveram métodos para induzir pluripotência em células adultas humanas.Seguindo as metodologias de Yamanaka e Thomson, células poderiam ser isoladas da pele de um adulto através de uma biópsia e revertidas ao estágio de pluripotência. A partir desse estágio, as células ja estariam aptas a passar pelo processo de diferenciação conforme o desejo de pesquisadores e médicos.

Com uma tacada só, dois problemas relacionados às células tronco foram resolvidos: não era mais necessário se destruir embriões para a sua obtenção, e as células tronco que seriam obtidas teriam o mesmo background genético de pacientes que poderiam se beneficiar de pesquisas desenvolvidas nelas. Reduz-se o risco de rejeição imune em caso de transplantes, por mais que outros riscos ainda possam estar presentes. [3] Esse tipo de células tronco já possui diversas aplicações cientificas. É utilizado para estudar mutações genéticas associadas a doenças cardíacas, para criar minicérebros e estudar possíveis tratamentos para doenças neurológicas — inclusive doenças não genéticas como o zika –, e no desenvolvimento de sistemas chamados “organs-on-chips“, também conhecidos como sistemas microfisiológicos, que combinam técnicas de engenharia e biologia para modelar diferentes tecidos do corpo humano a fim de estudar doenças e facilitar o desenvolvimento de novos fármacos.

Resolvemos totalmente o dilema ético?

Apesar das iPSCs apresentarem claras vantagens no âmbito ético, por não destruírem embriões, muitas pesquisas que já foi feita com células embrionárias ainda não foram replicadas em iPSCs. Outra questão importante é que várias linhas de células embrionárias já foram desenvolvidas [4] e estão disponíveis para pesquisadores as estudarem. Apesar de o processo de geração dessas linhas ter envolvido o sacrifício de embrião, hoje, elas se mantém com passos de subcultivo de células. Isso significa que as linhas de células embrionárias já existentes não precisam destruir outros embriões para se manterem úteis à pesquisa científica.

Será que é correto abrir mão de pesquisas que podem ser realizadas em linhas embrionárias, mas que não exijam o sacrifício de novos embriões? Ainda, será que cabe ao governo escolher qual tipo de pesquisa deve ser privilegiada — ou permitida?

Como os governos se posicionam a respeito?

Nos Estados Unidos, tivemos algumas decisões relacionadas a esse tópico. Originalmente, o ex-presidente George W. Bush proibiu o uso de verbas públicas federais no desenvolvimento de linhas celulares embrionárias e nas pesquisas com células tronco embrionárias humanas — uma medida que parcialmente forçou pesquisadores a procurarem alternativas. Como resultado, diferentes estados e fundações criaram suas prórpias agências para financiar esse tipo de estudo.

O estado da Califórnia que usou o dinheiro de impostos para fundar uma agência chamada CIRM (California Institute for Regenerative Medicine). A universidade de Harvard criou um instituto de células tronco para captar dinheiro privado direcionado ao desenvolvimento de novas linhas embrionárias e ao financiamento de pesquisas já existentes.

Em seu governo, Barack Obama alterou as diretrizes e permitiu que verbas públicas fossem utilizadas em pesquisas com células tronco embrionárias, mas limitou a criação de novas linhas. Será que esse é um caminho que o Brasil vai seguir?

Ou, indo um pouco além: considerando que o direito administrativo brasileiro é diferente — ele atua com a premissa de proibição, ou seja, aquilo que não é expressamente permitido é proibido –, como ficam as pesquisas que usem linhas ou tipos de células não tipificados nos marcos regulatórios brasileiros? Será que a Lei de Biossegurança precisa ser revista? Se for, quais seriam as adições a se fazer?

A vantagem é que agora não estamos limitados a um único tipo de abordagem com células pluripotentes. Existem pelo menos 3 possíveis. Além disso, novas técnicas têm se mostrado promissoras na reprogramação direta de células e podem ser um passo além, resolvendo por completo o dilema — apesar de provavelmente demorar alguns anos, se não décadas, até que sejam totalmente robustas.

A posição de Marina

A resposta de Marina Silva se enquadra em uma das possíveis soluções para o dilema — permitir pesquisas com células adultas uni e multipotentes, além daquelas de pluripotência induzida. A candidata mostrou um conhecimento sobre o tema que está um pouco além daquele da média da população, mesmo da elite.

Todavia, o desconhecimento do tópico leva muitas pessoas a não entenderem essa nuance e julgarem a sua posição como fundamentalista e extrema. Nesse debate, precisamos de mais informações para definir quais parâmetros e valores guiarão a política pública.

Criar um espantalho com falas como aquela de Elena Landau (“Como alguém pode ser contra pesquisa com células tronco em 2018 ?”) arrisca  ainda mais um tópico que deve ser discutido de forma sensata e moderada. Nesse caso, como em tantos outros, a ciência só responde parte das perguntas, mas ela não é capacitada para fazer o julgamento de valor necessário sobre o caminho que a política pública deve seguir.


[1] Mesmo no caso da pele nós podemos ver danos permanentes devido à não substituição do tecido danificado por um de composição similar, esse é o caso das cicatrizes, principalmente em casos de queimaduras ou cortes profundos.

[2] Essencialmente, esse é um dilema (bio)ético e não científico/biológico: há a certeza de que o embrião está vivo — da mesma forma que células individuais estão vivas — e de que ele é um embrião humano, portanto um organismo humano em uma de suas fases de desenvolvimento. A pergunta ética que fica é: quando um organismo humano adquire status de pessoa? Em que fase do desenvolvimento esse status é garantido? Ele é garantido na concepção, quando deixamos de ver gametas haplóides e passamos a observar um zigo diplóide diferente de seu pai e mãe? Ou seria garantido quando do desenvolvimento do sistema nervoso e a capacidade de sentir dor? Ou ainda, seria algo garantido pela vontade da mãe durante a gestação — e, nesse caso, como não há gestação seria algo inexistente?

[3] Como células tronco têm por definição a capacidade de se replicar, há sempre um risco cancerígeno em seu uso — seja de células embrionárias, seja daquelas de pluripotência induzida. Para contornar esse problema, a maior parte das pesquisas terapêuticas envolvendo células tronco trabalha com algum protocolo de diferenciação. Ou seja, durante a terapia, não seriam implantadas células tronco pluripotentes e sim alguma linha de células multipotentes ou unipotentes.

[4] Uma linha de células é um conjunto de células gerado após culturas primárias. Em geral, linhas de células tronco podem ser mantidas por longo tempo, passando por diversos subcultivos. Elas também podem ser congeladas e transportadas entre diversos locais. Com isso, uma linha bem caracterizada e robusta pode ser distribuída/vendida para outros pesquisadores a fim de que eles tentem replicar experimentos realizados anteriormente, ou possam desenvolver seus estudos em um conjunto de células cujo comportamento é melhor conhecido.

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